Treino de Limiar e Limiar de Lactato: Como Fazer e Por Que o Pace Falha na Montanha

O treino de limiar é o esforço sustentado na faixa em que o lactato sanguíneo ainda se estabiliza, mas por pouco. Em terreno plano, essa faixa se traduz bem em pace. Em subida, ela não se traduz: a mesma intensidade fisiológica exige paces radicalmente diferentes conforme a inclinação, e insistir em min/km na montanha destrói o treino.

Esse é o ponto que quase nenhum guia de limiar em português cobre. A literatura descreve bem o que acontece no sangue, os planos de asfalto prescrevem bem em pace, e o corredor de trail herda uma prescrição que não sobrevive ao primeiro quilômetro de D+ (ganho de elevação acumulado ao longo do percurso, medido em metros).

Este guia resolve três coisas de uma vez. Primeiro, a fisiologia com nomes corretos: LT1, LT2 e MLSS não são sinônimos, e confundir os três é a origem da maior parte dos treinos de limiar mal executados. Segundo, a nomenclatura: tempo run é um formato de treino de limiar, mas o termo treino de limiar cobre sessões mais variadas. Terceiro, e mais importante para quem corre montanha, como ancorar a intensidade em PSE (percepção subjetiva de esforço, escala de 1 a 10) e frequência cardíaca quando o relógio deixa de fazer sentido.

O que é limiar de lactato?

Limiar de lactato é o nome dado a pontos de transição em que a concentração de lactato no sangue muda de comportamento à medida que a intensidade aumenta. LT1 identifica a primeira elevação sustentada acima da linha de base. LT2 identifica a elevação acelerada que marca a fronteira superior do esforço sustentável. Os dois pontos respondem a perguntas diferentes e não são intercambiáveis.

O treino de limiar clássico mira a região próxima ao LT2 e ao máximo estado estável de lactato, o MLSS. É a intensidade mais alta que você consegue sustentar sem que o lactato entre em curva ascendente até a exaustão. O MLSS é medido por testes de carga constante e permanece a referência fisiológica direta para esse teto (Heck e Wackerhage, 2024).

Na prática, é o esforço que você descreveria como “forte, mas controlado”: consegue falar em frases curtas, não consegue conversar, e sabe que aguentaria mais uns 30 a 40 minutos se precisasse. Em PSE, isso corresponde a 7 ou 8 numa escala de 1 a 10.

O que é o LT1, o primeiro limiar

O LT1 é a intensidade em que o lactato sanguíneo começa a subir de forma perceptível acima do valor de repouso, mas produção e remoção ainda se equilibram. Alguns protocolos usam 2 mmol/L como referência, mas o LT1 individual depende da curva de lactato e do método adotado (Faude, Kindermann e Meyer, 2009).

Abaixo do LT1 está o domínio moderado, onde o corpo funciona em estado estável rápido e a fadiga se acumula devagar. É onde mora a corrida fácil, o longão e a maior parte do volume semanal de qualquer corredor bem treinado.

Ultrapassar o LT1 muda o jogo. O lactato sobe e se estabiliza num patamar novo, mais alto. Você continua em equilíbrio, mas num equilíbrio mais caro.

O que é o LT2 e o MLSS, o teto do estado estável

O MLSS (máximo estado estável de lactato) é a intensidade máxima em que a concentração de lactato no sangue permanece constante ao longo do tempo. Uma revisão publicada em 2024 na BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation rastreia a origem do conceito e reforça que MLSS é o termo fisiologicamente preciso por trás do que a linguagem popular chama de “limiar anaeróbico”.

Um passo acima do MLSS e o equilíbrio se rompe. O lactato passa a subir continuamente, o VO2 deriva para cima e o esforço tem prazo de validade curto, medido em minutos, não em dezenas de minutos.

“LT2” é o rótulo prático que a maioria dos treinadores usa para essa fronteira. Ele é uma boa aproximação do MLSS, ainda que os métodos de detecção (limiar de 4 mmol/L, Dmax, onset of blood lactate accumulation) produzam valores levemente diferentes entre si. Essa divergência metodológica é real e está bem documentada por Faude, Kindermann e Meyer (2009).

Onde exatamente fica a zona de limiar

A zona de limiar é a faixa entre LT1 e MLSS, o que a fisiologia do exercício chama de domínio pesado. O treino de limiar clássico mora na metade superior dessa faixa, encostado no MLSS sem ultrapassá-lo.

FaixaReferência fisiológicaPSEFalaSustentabilidade
Fácilabaixo do LT14-6frases completashoras
Limiar baixologo acima do LT16-7frases médias60-90 min
Limiar clássicopróximo ao MLSS7-8frases curtas40-60 min
Acima do limiaracima do MLSS9-10palavras soltasminutos

O que torna esse estímulo tão valioso é o retorno por unidade de desgaste. O treino de limiar eleva a velocidade que você sustenta antes de “fechar”, e cobra muito menos recuperação do que uma sessão de VO2max equivalente. Se você tem uma única sessão de qualidade por semana e uma prova longa no horizonte, é ela que entrega mais.

Como saber qual é o meu limiar de lactato?

Você descobre o seu limiar de lactato por uma estimativa de relógio ou por um teste com coletas de sangue, sabendo que os dois métodos respondem com níveis diferentes de precisão. A estimativa é suficiente para organizar muitas sessões. O laboratório é a escolha quando você precisa de zonas fisiológicas comparáveis ao longo do tempo ou de uma prescrição individual mais rigorosa.

MétodoO que entregaO que ele não entrega
Garmin ou COROSEstimativa prática de limiar, derivada de dados de corrida, como frequência cardíaca e ritmoMedição de lactato no sangue
Teste incremental com lactatoCurva de lactato e estimativa de LT1 e LT2 para o protocolo usadoUm número universal, independente de protocolo e do dia do teste
Teste direto de MLSSA maior intensidade em que o lactato permanece estável em esforços de carga constanteUma avaliação rápida, pois exige várias sessões longas

Como interpretar o limiar de lactato Garmin?

O limiar de lactato exibido pela Garmin é uma estimativa operacional de intensidade, expressa por frequência cardíaca, ritmo ou potência. O manual da Garmin diz que, em corredores experientes, ele fica perto de 90% da frequência cardíaca máxima e entre o ritmo de 10 km e o de meia maratona. Essa faixa é compatível com o limiar alto usado em muitos treinos, mas a Garmin não identifica formalmente o número como LT1, LT2 ou MLSS.

Há uma ambiguidade importante no próprio texto da Garmin. O manual define o limiar como a intensidade em que o lactato “começa a se acumular”, formulação que pode lembrar LT1. Já a faixa de frequência cardíaca e ritmo se aproxima do que muitos treinadores chamam de LT2. Essa associação é uma interpretação prática, não uma equivalência declarada pelo fabricante. Use o número para orientar o treino, sem tratá-lo como leitura direta de lactato.

A forma de obter essa estimativa depende do modelo e dos recursos habilitados. Alguns relógios oferecem teste guiado com monitor de frequência cardíaca compatível, enquanto outros também registram detecção automática em corridas estáveis e intensas. Por isso, uma cinta peitoral não é condição universal para o valor aparecer na Garmin: confira o manual do seu modelo antes de escolher o método.

Garmin e COROS substituem o teste de laboratório?

Garmin e COROS ajudam a estimar uma âncora de treino, mas não substituem uma curva de lactato medida em laboratório. A Garmin informa que sua estimativa usa frequência cardíaca e ritmo. No teste de condicionamento da COROS, um trecho de três minutos é apresentado como estimativa do ritmo de 10 km ou do limiar de lactato. Nenhum dos dois relógios coleta sangue durante a corrida.

No laboratório, um teste incremental aumenta a intensidade em estágios e mede amostras capilares para construir a curva de lactato. A interpretação depende do protocolo e do método escolhido, pois LT1, LT2, 4 mmol/L, Dmax e MLSS não produzem necessariamente o mesmo resultado. Para medir MLSS de forma direta, são necessários vários esforços de cerca de 30 minutos em cargas constantes, o que explica por que ele é referência fisiológica, mas pouco prático para a rotina (Heck e Wackerhage, 2024).

Para a maioria dos corredores, escolha uma única referência, acompanhe a tendência e cruze-a com PSE, sensação de treino e execução real. Se o relógio aponta um limiar incompatível com o esforço que você sustenta, use PSE e ajuste a referência depois de novas corridas estáveis ou de uma avaliação profissional.

Tempo run e treino de limiar são a mesma coisa?

Tempo run costuma ser uma forma de treino de limiar, mas os termos não são sinônimos estritos. Tempo run designa geralmente um bloco contínuo forte e controlado, próximo ao limiar alto. Treino de limiar também pode usar blocos fracionados ou uma intensidade um pouco menor dentro da faixa entre LT1 e MLSS.

Jack Daniels popularizou o T-pace, o “threshold pace”, como a intensidade que um corredor treinado sustenta por cerca de 60 minutos em condição de prova. Esse ritmo corresponde ao limite superior da zona de limiar de lactato, ou muito ligeiramente acima dele.

Por que os nomes se sobrepõem

Os termos vêm de caminhos diferentes. “Limiar” nasceu no laboratório, ancorado em coleta de lactato capilar e curvas de concentração. “Tempo run” nasceu na pista, ancorado em cronômetro e sensação, muito antes de existir lactímetro portátil.

Quando o vocabulário de laboratório chegou ao treinamento amador, os dois passaram a conviver. Hoje um plano de maratona escreve “tempo run de 30 minutos” e um artigo de fisiologia escreve “esforço contínuo a 90% do MLSS” descrevendo a mesma sessão.

Onde os dois termos divergem um pouco

A divergência é de amplitude, não de natureza. “Treino de limiar” abrange a faixa inteira entre LT1 e MLSS, incluindo blocos longos em intensidade um pouco mais baixa (o que alguns chamam de sweet spot ou limiar estendido). “Tempo run” costuma se referir ao formato específico: um bloco contínuo de 20 a 40 minutos perto do teto dessa faixa.

TermoOrigemO que descreveFormato típico
Tempo runpista, Jack DanielsT-pace, topo da zona de limiarbloco contínuo de 20-40 min
Treino de limiarfisiologia do exercíciofaixa inteira entre LT1 e MLSScontínuo ou blocos fracionados
Limiar anaeróbicolinguagem popularaproximação imprecisa do MLSSusado como sinônimo de LT2
MLSSlaboratóriomáximo estado estável de lactatoconceito, não sessão

Se o seu plano diz “tempo run” e você executou um bloco de 25 minutos em PSE 7 a 8, você fez um treino de limiar. Não há nada a corrigir.

Qual a diferença entre treino de limiar e zona 2?

A diferença é a posição em relação ao LT1: zona 2 fica abaixo do primeiro limiar, treino de limiar fica acima dele. São domínios fisiológicos distintos, com adaptações distintas, e um não substitui o outro.

Zona 2 é o domínio moderado. O alvo principal ali é adaptação mitocondrial, densidade capilar e eficiência oxidativa, tudo isso construído com volume alto e desgaste baixo. Tratamos disso em profundidade no guia de zona 2 corrida, incluindo a distribuição polarizada 80/20 e como calibrar a corrida fácil pelo talk test.

Treino de limiar é o domínio pesado. O alvo é elevar o teto do estado estável, ou seja, deslocar o MLSS para uma velocidade maior. Você não constrói base aqui, você move o teto.

Por que o limiar não funciona sem a base de zona 2

A capacidade de absorver treino de limiar é proporcional à base aeróbica que você tem embaixo dele. Um corredor com pouca base entra na sessão de limiar já cansado, executa mal e demora três dias para recuperar de um estímulo que deveria custar um.

É por isso que a sequência importa. Volume fácil primeiro, limiar depois, e nunca o inverso. Seiler e Tønnessen (2009) descreveram essa distribuição polarizada: cerca de 80% do tempo abaixo do LT1 justamente para sustentar os 20% que ficam acima.

E o que fica acima do limiar

Acima do MLSS está o domínio severo, onde vivem o intervalado de VO2max e os tiros curtos. Ali não existe estado estável: o lactato sobe até você parar.

O estímulo de vo2 max desenvolve o teto de captação de oxigênio e cobra caro em recuperação. O treino de limiar desenvolve a fração desse teto que você consegue sustentar por muito tempo. Para prova longa, é a segunda variável que move mais o resultado.

Tipo de sessãoDomínioPSEDuração do estímuloRecuperação necessária
Corrida fácil / longãomoderado4-640 min a 3h+0-1 dia
Treino de limiarpesado7-820-40 min de esforço1-2 dias
Intervalado VO2maxsevero912-24 min de esforço2-3 dias
Tiro curtosevero / neuromuscular9-103-8 min de esforço1-2 dias

Esse mapa completo, com os sete tipos de sessão e como distribuí-los na semana, está no guia de tipos de treino de corrida. Este artigo é o aprofundamento da parte de limiar.

Como fazer um treino de limiar

Um treino de limiar costuma combinar aquecimento, um ou mais blocos sustentados e desaquecimento. Durações, recuperações e intensidade seguem a prescrição individual; os formatos abaixo são exemplos para entender a sessão, não uma progressão para adicionar ao plano.

Na execução:

  1. Faça o aquecimento prescrito, começando em esforço fácil e aumentando gradualmente quando indicado.
  2. Inclua acelerações apenas se fizerem parte da sessão. Respeite as durações e recuperações recebidas, sem acrescentar estímulos por conta própria.
  3. Execute o bloco principal na intensidade indicada, por PSE ou FC conforme o treino. Na referência de PSE do Continue, o limiar fica em 7 a 8, com esforço forte e controlado.
  4. Observe se o esforço continua sustentável. Se ele subir além do previsto, reduza a intensidade e considere terreno e condições do dia. Uma nota isolada de PSE não determina se você está acima do limiar fisiológico.
  5. Complete o desaquecimento previsto, reduzindo o esforço gradualmente. Essa transição não garante ausência de dor muscular nem melhor sensação no dia seguinte.

Formato contínuo ou em blocos

O formato contínuo usa um bloco único sustentado. Blocos de 20 a 40 minutos aparecem em algumas prescrições de tempo run, mas essa duração não é uma meta de entrada para todo corredor.

O formato fracionado divide o estímulo em blocos com recuperação entre eles. Por exemplo, 3 blocos de 10 minutos somam 30 minutos de esforço, além das recuperações. A adequação desse volume e dos intervalos depende do histórico e do objetivo da pessoa.

A progressão pode modificar duração, número de blocos ou recuperação ao longo do ciclo. Siga a sequência prescrita; passar de blocos fracionados a um esforço contínuo não é obrigatório nem apropriado em toda fase.

Frequência e periodização

Uma sessão de limiar por semana atende a maioria dos corredores amadores. Duas sessões cabem apenas em fases específicas de preparação, e mesmo assim raramente em semanas consecutivas com volume alto.

Na periodização, o limiar tem seu momento. Na fase de base ele aparece pouco ou nada, porque a prioridade é volume fácil. Na fase de desenvolvimento ele vira a sessão de qualidade principal. Na fase específica ele se funde ao longão, na forma de longos com blocos de limiar embutidos.

Por que prescrever limiar por pace não funciona em trail e montanha?

Porque em terreno inclinado o pace deixa de ser proxy de intensidade. A mesma intensidade fisiológica, o mesmo lactato, a mesma frequência cardíaca, produz paces radicalmente diferentes conforme a inclinação, e um alvo fixo de min/km transforma o treino de limiar em um esforço acima do MLSS na subida e abaixo do LT1 na descida.

Não é uma questão de calibragem fina. É uma diferença de ordem de grandeza, e o dado mais claro sobre isso tem mais de vinte anos.

O custo energético explode na subida

Minetti e colaboradores (2002, Journal of Applied Physiology) mediram o custo energético de caminhada e corrida em inclinações extremas, de -45% a +45%, em atletas de montanha. Os números são brutais.

SituaçãoCusto energético (J/kg/m)
Corrida no plano3,40
Caminhada a +45% de inclinação17,33
Corrida a +45% de inclinação18,93

Correr a +45% custa aproximadamente 5,6 vezes mais energia por metro percorrido do que correr no plano. Acima de +15% de inclinação, o custo passa a subir de forma diretamente proporcional ao gradiente, com eficiência mecânica estabilizada em torno de 0,22 a 0,24.

Repare também no segundo dado: a +45%, caminhar custa 17,33 J/kg/m e correr custa 18,93 J/kg/m. Caminhar é mais barato que correr naquela inclinação, o que explica por que atletas de montanha caminham em rampas fortes sem que isso seja um sinal de má forma.

A consequência para o treino de limiar é direta. Se o seu alvo é 4:30/km porque foi assim que o teste de pista definiu, esse alvo numa rampa de 12% coloca você em domínio severo em poucos minutos. E o mesmo alvo numa descida de 6% coloca você abaixo do LT1, sem estímulo nenhum.

Como acompanhar a intensidade em terreno inclinado

A intensidade pode ser acompanhada pela PSE ou por faixas de frequência cardíaca ajustadas ao atleta, conforme a prescrição. Em terreno variável, o pace ajuda a registrar o que aconteceu, mas um alvo fixo em min/km pode deixar de representar o esforço desejado.

A PSE ajuda a perceber como o terreno, o calor e o estado do dia afetam o esforço. Se o bloco pede esforço forte e controlado, você ajusta a velocidade quando a inclinação muda para preservar essa intenção. Isso exige prática de percepção; não é uma calibração automática ou uma medida exata do limiar.

A frequência cardíaca pode guiar blocos sustentados quando as zonas estão configuradas para esse uso. Consulte a faixa recebida, em vez de deduzir seu limiar por um percentual universal da FC máxima. Os batimentos levam algum tempo para responder a mudanças de esforço e podem subir ao longo de uma sessão, sobretudo com calor. Interprete o sinal junto da execução e da percepção; não acelere bruscamente para fazer o número chegar ao alvo.

Para aprender a reconhecer o esforço, consulte treinar por percepção de esforço e a escala de Borg. Para usar FC no aplicativo, veja como configurar suas zonas no Continue.

Como estruturar limiar em subida na prática

Escolha uma subida constante, sem trechos técnicos, com inclinação entre 3% e 8%. Uma estrada de terra em aclive contínuo é o cenário ideal, e a Serra do Cipó, em Minas Gerais, e a Serra da Mantiqueira oferecem dezenas delas.

Prescreva por tempo, nunca por distância. “3 blocos de 10 minutos em PSE 7 subindo, descendo em trote fácil” é uma sessão executável em qualquer terreno. “3 blocos de 2 km a 4:30” não é.

Trate a descida como recuperação de verdade, em PSE 3 a 4. A tentação de descer forte é grande porque parece fácil, mas a descida cobra caro em dano muscular excêntrico e compromete a qualidade do bloco seguinte.

Registre D+ e tempo, não pace médio. Num relógio como o Garmin Fenix 8 ou o Coros Apex 4, o campo mais útil na tela durante um bloco de limiar em montanha é o tempo decorrido do bloco, não min/km. O pace na tela em subida só serve para induzir você a acelerar quando não deveria.

Erros comuns no treino de limiar

Cinco erros explicam a maior parte dos treinos de limiar que não entregam adaptação: correr acima do limiar, manter alvo de pace em terreno com D+, repetir a sessão duas ou três vezes por semana sem base aeróbica, cortar aquecimento e desaquecimento, e confundir limiar com corrida moderada-difícil.

Correr acima do limiar. É o erro mais frequente e o mais custoso. O corredor entra no bloco em PSE 8, sobe para 9 no meio e termina em falência. Isso não é treino de limiar, é um intervalado mal desenhado, com o custo de recuperação de um VO2max e o benefício de nenhum dos dois. A causa é quase sempre começar rápido demais nos primeiros três minutos, quando o esforço ainda parece confortável porque o lactato não subiu. Solução: entre no bloco deliberadamente conservador e confirme a PSE aos 10 minutos.

Manter alvo de pace em terreno com D+. O corredor leva o alvo de min/km da pista para a montanha e pode transformar a subida em esforço acima do previsto. Acompanhe a duração do bloco e a intensidade prescrita, por PSE ou FC, conforme a configuração e as instruções da sessão.

Fazer limiar duas ou três vezes por semana sem base. O limiar é sedutor porque a sessão é dura o suficiente para parecer produtiva e não tão dura a ponto de assustar. O resultado é o corredor que vive na zona cinza, sem volume fácil suficiente para se recuperar nem estímulo alto suficiente para desenvolver VO2max. Solução: uma sessão semanal, com o restante do volume genuinamente fácil.

Cortar aquecimento e desaquecimento. A preparação ajuda a entrar gradualmente no esforço, e o desaquecimento permite uma transição para intensidades menores. Nenhum dos dois garante como você vai se sentir no dia seguinte. Respeite as etapas prescritas; se o tempo disponível mudou, ajuste a sessão com orientação em vez de encurtar partes arbitrariamente.

Confundir limiar com corrida moderada-difícil. Uma rodagem em PSE 6 e meio feita “com vontade” não é um treino de limiar, é uma corrida fácil executada rápido demais. Ela cobra recuperação de sessão de qualidade e entrega adaptação de sessão fácil. Solução: se o treino do dia é fácil, ele precisa ser fácil de verdade; se é limiar, o bloco precisa ser claramente desconfortável e claramente controlado.

Como o Continue trata o treino de limiar

O Continue organiza as sessões de limiar por tempo e intensidade, sem depender de pace-alvo. Você pode acompanhar o esforço pela PSE ou escolher a orientação por FC quando esse modo estiver disponível e configurado.

Essa escolha resolve um problema específico. O limiar é o tipo de sessão que mais sofre com plano estático: depende de você chegar descansado, de a semana anterior ter sido executada como planejado e do terreno disponível no dia. Uma planilha em PDF não sabe nada disso.

Para selecionar FC, informe seu limiar de frequência cardíaca (LTHR) no Perfil fisiológico e confira a opção em Perfil → Zonas de treino. O guia de configuração das zonas de FC no Continue detalha esse caminho. LTHR não é FC máxima: uma estimativa de FCmáx pela idade não substitui esse valor. Nessa configuração, a faixa em bpm entra como alvo nos blocos de esforço sustentado que o recurso cobre. A PSE continua prescrita em todos os treinos e continua sendo registrada no check-out.

O check-out é a avaliação rápida após o treino: você registra a PSE sentida e sua sensação geral, inclusive se acompanhou a sessão por FC. Quando esse retorno indica fadiga, o Continue pode propor aliviar o treino seguinte. A proposta só altera o plano depois de você tocar em “Confirmar Ajuste”.

Vale ser explícito sobre o que o Continue não faz. Ele não mede lactato nem estima MLSS por teste de campo automático. O app cuida da corrida, com volume, duração, D+, PSE e, quando disponível, FC. A familiaridade com a escala de esforço se desenvolve ao longo do uso, sem um prazo fixo para ficar calibrada.

Síntese

No formato clássico, treinar no limiar é sustentar um esforço forte e controlado próximo ao MLSS. Em PSE, isso é 7 a 8; a sessão pode ser contínua ou dividida em blocos conforme o plano.

Tempo run é uma forma comum de treino de limiar, normalmente em bloco contínuo perto do limiar alto. O nome mais amplo também cobre blocos fracionados e intensidades um pouco menores.

O terreno muda o custo de correr no mesmo pace. Os dados de Minetti mostram que correr a +45% custa quase seis vezes mais energia por metro do que correr no plano. Em montanha, acompanhe o esforço indicado por PSE ou FC, conforme a sessão, e use o pace para contextualizar o deslocamento.

As sessões de limiar fazem parte de uma organização do treino de corrida que também inclui dias leves e recuperação. O Continue organiza esses esforços por tempo e intensidade, considera o retorno do check-out e pode propor um alívio quando há sinais de fadiga.

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Fontes

  • Minetti AE, Moia C, Roi GS, Susta D, Ferretti G. Energy cost of walking and running at extreme uphill and downhill slopes. J Appl Physiol. 2002;93(3):1039-1046. PMID: 12183501.
  • Jones AM, Burnley M, Black MI, Poole DC, Vanhatalo A. The maximal metabolic steady state: redefining the “gold standard”. Physiol Rep. 2019;7(10):e14098.
  • The origin of the maximal lactate steady state (MLSS). BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation. 2024. Disponível em PMC10840223.
  • Faude O, Kindermann W, Meyer T. Lactate threshold concepts: how valid are they? Sports Med. 2009;39(6):469-490. PMID: 19453206.
  • Daniels J. Daniels’ Running Formula. 3rd ed. Human Kinetics; 2013. (definição de T-pace e tempo run)
  • Seiler S, Tønnessen E. Intervals, thresholds, and long slow distance: the role of intensity and duration in endurance training. Sportscience. 2009;13:32-53.
  • Burnley M, Jones AM. Power-duration relationship: physiology, fatigue, and the limits of human performance. Eur J Sport Sci. 2018;18(1):1-12. PMID: 27806677.
  • Garmin. Lactate Threshold, manual do proprietário.
  • COROS. Fitness Tests, Central de Ajuda.

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