Seria muita irresponsabilidade da minha parte me colocar aqui como qualquer tipo de especialista em budismo – mal e mal frequentei alguns estudos de ensinamentos por alguns meses e nunca consegui meditar mais do que três dias seguidos –, mas sempre que jogo Super Meat Boy eu fico maravilhado em como esse jogo é zen.

Sim, zen.

É claro que eu me irrito, assim como você se irrita, a cada vez que morro pela centésima quadragésima quinta vez num mesmo lugar de uma mesma fase. Ainda mais eu, que tenho o hábito de só passar para a próxima fase quando consigo A+ (uma performance quase perfeita) na atual. Não tem problema se irritar. A irritação também também pode ser zen, dependendo do que você sente e faz com ela.

Diante da morte, paz ou desespero?

Diante da morte, paz ou desespero?

Lidando com a frustração da falha

Meditar, para mim (cada pessoa te dará uma resposta diferente), é simplesmente sentar e se focar em uma coisa só: a respiração. O ar entrando e o ar saindo. Observar o quão bem você consegue fazer isso. E mais nada.

Faz-se um compromisso com o silêncio e a imobilidade. Assim como passar de uma fase do Dark World do SMB, é extremamente difícil conseguir ficar em silêncio e imóvel por mais do que alguns segundos. Mas tudo começa quando você se propõe a tentar por no mínimo uns cinco minutos.

“(…) ficar puto e brigar comigo mesmo só faz com que eu falhe ainda mais.” Logo surgem os impulsos. O corpo pede para que eu me coce, me mexa, me estique, arrume a postura, vire o pescoço para olhar para algo que está na minha visão periférica. E a mente, ah, a mente me engana que está focando na respiração, mas logo me percebo pensando em grana, nos problemas, no trabalho, em relacionamentos, naquele novo meme que vi no Reddit hoje mais cedo…

No jogo da meditação, reagir a esses impulsos (como fazemos o tempo todo na vida) é perder.

O objetivo é aprender a observar esses impulsos surgindo e deixá-los passar, sem fazer nada com eles. Só que isso é meio impossível, então o objetivo é simplesmente reagir da melhor forma (sem raiva, sem culpa, sem alteração) quando você falhar.

Comunhão entre corpo e mente

Esses tempos eu estava jogando Assassin’s Creed III. Demorava horas pra fazer progressos mínimos. Por quê? Não estava focado. O próprio jogo é uma bagunça tão espalhafatosa, com objetivos, sub-objetivos, atividades opcionais e entradas da Animus Database pulando toda hora na minha frente, que a distração se torna a norma. Logo eu estava pausando porque surgiu uma notificação no Facebook.

Vê se eu fico checando rede social quando tô jogando Meat Boy. Aqui, ó.

Super Meat Boy, ao menos da forma que eu jogo, não admite menos do que a minha atenção plena. Se eu não estiver 100% focado na minha respiração ao meditar, eu falho nela. Se, no jogo, eu não estiver 100% focado no obstáculo à minha frente a cada instante e em mais nada nesta vida, eu falho.

E nos dois casos de falha, ficar puto e brigar comigo mesmo só faz com que eu falhe ainda mais.

fuper-meat-boyCada vez que eu morro, de novo e de novo, na mesma porra de serra maldita, eu não posso me permitir o luxo de ficar frustrado. Eu preciso continuar respirando calmamente e tentar de novo, como se nada tivesse acontecido, porque senão aí mesmo que a porra não vai dar certo.

Esses dias eu estava jogando pra tentar me distrair de uma merda que estava acontecendo na minha vida. Às vezes eu estava lá, pulando de uma plataforma à outra, 100% concentrado, em um estado de total comunhão entre mente e corpo, no qual o meu dedo apertava o botão de pular antes sequer da minha mente pensar que eu tinha que fazer isso, e do nada a lembrança da situação ruim voltava à minha mente. Imediatamente eu morria em algum obstáculo bobo, que normalmente eu teria passado.

Na meditação, ou tu medita, ou tu não medita. No Super Meat Boy, ou tu está jogando, ou não está. Simples assim. Bem zen.

(Tenho certeza que outros jogos são tão zen, nesse sentido, quanto SMB. Qual te veio à mente agora?)


Fabio Bracht

Eu tento. [About.me]